Atenção que estes contos não se destinam a crianças. Poderão, eventualmente, ter conteúdo não aconselhável a menores

Domingo, 28 de Dezembro de 2008

- Avô? Onde estás?
A pequena Ana aproximou-se mais um pouco do barracão e chamou novamente:
- Avô?
Desta vez conseguiu ouvir alguns barulhos lá de dentro. Continuou a aproximar-se da porta. Movia-se com dificuldade, pois as suas pernitas enfiavam-se na neve macia até ao joelho. Ana tinha 5 anos e como todas as crianças da sua idade, tinha um curiosidade tremenda. Há dois dias que o avô se escapava para o barracão. Ela queria saber o que é que ele lá estava a fazer dentro. Apanhara a avó ocupada a preparar a panela para o jantar, e escapara-se pela porta. Hoje ia descobrir o que se passava no barracão.
De repente ouviu o Lorde a ladrar. Vinha de dentro do barracão. Instantes depois a porta abriu-se e o avô espreitou cá para fora. Fora apanhada. O velho sorriu, abriu mais a porta e o cão apareceu vindo lá de dentro, enterrando-se na neve ao correr e optando por saltar até chegar perto da miúda. Ana tentou levantar as mãos mas já foi tarde. O Lorde, tinha-a alcançado e saltou para colocar as patas da frente sobre os ombros da miúda enquanto a língua molhada lhe lambuzava a cara. Ana não conseguiu aguentar o embate do cão e caiu para trás soltando um grito, misto de alegria e de susto. A neve fofa amorteceu-lhe a queda, mas o cão continuava de roda dela a lamber-lhe a cara o mais que podia. Ana fechou os olhos e ria deliciada, enquanto procurava sem grande sucesso, afastar o cão.
Ouviu uma pequena risada do avô e sentiu, as mãos dele a puxarem-lhe um braço. O avô afastou o cão e pegou em Ana ao colo, rindo enquanto lhe sacudia a roupa.
- Se a tua avó te visse... ainda lhe dava uma coisinha má - Riu-se o avô, enquanto se virava para fechar a porta do barracão.
- Avô? O que estavas a fazer ali dentro?
- Ah... isso é segredo
- Oh.. mas eu quero saber. Eu não conto a ninguém. Prometo.
- Pois, mas agora não te posso contar. Vamos ver o que a avó está a preparar para o jantar? Acho que é uma coisa boa.. quentinha, e saborosa... Ela disse-me que ia fazer uma coisa especial.
Ana não ficou muito convencida, mas a curiosidade venceu-a:
- O que é?
- Não sei, vamos perguntar-lhe...
E assim, avô e neta, seguidos pelo Lorde, atravessaram o pequeno espaço que separava o barracão da casa.
A casa era de pedra, como era hábito naquelas regiões. E, também como era hábito tinha um telhado muito inclinado para que a neve não se acumulasse. Lá dentro havia uma sala grande que servia de cozinha e de sala de estar. Por trás tinha um quarto pequeno, que servia de dispensa, e onde a avó guardava os víveres.
No piso de cima havia um só quarto onde os avós dormiam. O Avô tinha pendurado uma cortina isolando uma parte do quarto e tinha colocado lá uma cama pequena onde Ana dormia.
Eram pobres, mas eram felizes.
O avô bateu os pés para sacudir a neve das pesadas botas e entrou na casa. Ana sentiu o ar quente aquecer-lhe o rosto. Já no chão a menina, apressou-se a tirar o gorro, húmido da neve e a pendurá-lo perto da grande lareira que aquecia a casa toda. A mesma coisa fez com o casaco. O avô fazia o mesmo diante do olhar da avó. Ela não queria que eles andassem em casa com os casacos de andar lá fora. Quanto ao cão, esse tinha-se apressado a ir colocar-se no seu lugar habitual, perto da cadeira do avô, mas ainda suficientemente perto da lareira para se aquecer.
- Avó, Avó... O que é o jantar?
O Avô interrompeu, antes que a mulher pudesse falar:
- Eu disse-lhe que ias preparar uma coisa especial...
- Ora... Não é nada de especial. É sopa e um bocado de galinha cozida.
A menina olhou para os dois sem perceber o que havia de especial na comida. Já várias vezes tinha comido a mesma coisa. - Mas o avô disse que era especial...
- É pois - Insistiu o avô - Esta galinha era uma senhora galinha... Não era uma galinha qualquer... Queres que te conte a estória da galinha ?
- Quero sim... Conta!
- Primeiro vamos comer... depois eu conto-te a estória.
A avó, que estava de costas para eles a servir a canja para as tigelas, riu-se sem que eles vissem. O raio do homem sempre a inventar estórias... Agora era uma galinha. Vá lá que não a contou agora, senão a miúda até podia não querer comer a galinha. E nos dias que corriam, não se podiam dar ao luxo de estragar comida.
Colocadas as tigelas na mesa, começaram a comer. O avô, como de costume, acompanhava a sopa com um pedaço de pão na mão esquerda. comia umas quantas colheradas, e trincava um bocado do pão. Ana tentar imitá-lo mas não se ajeitava. Precisava das duas mãos para comer a canja. Com uma mão segurava na colher, e com a outra segurava na tigela. Sabia-lhe bem aquecer a mão na tigela quente. Durante uns instantes apenas se ouviam as colheres a raspar nas tigelas e o ocasional som que o avô por vezes fazia a sorver a sopa. Ana gostava daquele sabor. Quando o tentara imitar a avó repreendera-a. Disse-lhe que era um som feio. Que não o devia fazer. E Ana reparara que depois disso o avô já não o fazia tão frequentemente. Se calhar a avó também repreendera o avô.
Depois de terminada a sopa, a avó levantou-se e trouxe para a mesa uma panela fumegante. Era a mesma panela onde fizera a sopa, mas agora, tirava a tampa e colocava na tigela do avô um pedaço de galinha. Depois colocou um pedaço do peito e uma asa na tigela de Ana. E, por fim tirou um outro pedaço para a sua tigela. Voltou a tapar a panela, e continuaram a comer. Ana gostava de galinha cozida. Era das poucas coisas que lhe permitiam comer com a mão. Aliás o avô e a avó também usavam as mãos. Ana achava que a comida assim sabia melhor. O facto de se lambuzar era secundário. A menina era ainda pequena demais para se preocupar com essas coisas. Agora estava alegremente a tratar da asa que a avó lhe tinha posto na tigela.
Mais tarde, após o jantar, e depois de ter ajudado a avó a arrumar a loiça, Ana estava a brincar com o Lorde, quando se lembrou da estória da galinha.
- Avô! E a estória? Disseste que ma contavas...
O avô coçou a cabeça. Lá tinha de inventar uma estória para contar à miúda.
- Está bem, então anda cá.
Ana foi sentar-se ao colo do avô aninhando-se confortável à espera da estória. O avô pigarreou, e começou a contar.
- Um certo dia...
- Avô, então não começa com "era uma vez"?
- Sim sim... - riu-se o avô - Agora está sossegada de deixa-me contar.
- Era uma vez um senhora muito velha... Assim mesmo muito velha. Cheia de rugas e de cabelos brancos. Essa senhora chamava-se Lina. A senhora era muito rica. Tinha uma quinta muito grande.
- Oh avô... e a galinha?
- Espera que já lá chegamos... A senhora chamava-se Lina, e era muito rica. Ela tinha uma quinta com muitos animais. Mas ela era muito má para os animais. Ela obrigava-os a trabalhar muito na quinta. E eles coitadinhos, não tinham outro remédio senão trabalhar de sol a sol.
- O que é isso avô?
- É quando a gente começa a trabalhar quando nasce o sol e só pára quando o sol se põe... Quando fica escuro.
- Ah... então eles trabalhavam muito ...
- Sim Eles trabalhavam muito lá na quinta. E depois quando vinham comer, a Dona Lina, nunca lhes dava comida com fartura. Eles ficavam sempre com um bocadinho de fome. Depois dormiam, e no dia a seguir lá iam eles outra vez trabalhar.
- E que animais eram avô?
- Eram uns bois, e umas vacas... E eram uns burros, e uns porcos. Ela tinha lá muitos animais. Mas o pior, o pior mesmo eram as galinhas... Ela era muito má para as galinhas...
A pequena Ana perguntou em voz baixa - porquê?
- Ninguém sabia. Mas o certo é que ela era muito má para as galinhas... Obrigava-as a por um ovo todos os dias. Se alguma não pusesse o ovo, ela ia lá e levava a galinha. Ninguém mais via a galinha.
Os outros animais iam trabalhar para longe da casa, mas as galinhas ficavam ali ao pé de casa, todo o dia fechadas no galinheiro. E a Dona Lina, estava sempre a ver se alguma ia por o ovo. Assim que elas punham o ovo, ela ia lá buscá-lo... E quando entrava no galinheiro, ela dava pontapés às galinhas. Ai... se elas não se despachavam a sair da frente levavam um pontapé.
- Coitadinhas...
- Pois... e as galinhas não estavam nada satisfeitas... tinham muito medo dela... Sempre que a viam, fugiam da frente... Mas dentro da capoeira não podiam fugir muito. Acabavam sempre por levar uns pontapés. Os outros animais viam isto e também tinham pena das galinhas, mas eles não podiam fazer nada... Um dia, a Dona Lina recebeu uma visita. Era uma menina muito bonita. E a menina ficou lá em casa uns dias. A menina tratava muito bem dos animais e eles gostavam todos muito dela. Ela vinha ter com eles ao campo, e fazia-lhes festinhas... Até trazia às vezes uma verduras para eles comerem. E ela gostava muito das galinhas. Pegava nelas ao colo, fazia-lhes festinhas, e falava com elas...
- Falava com elas? - perguntou Ana muito admirada.
- Sim, elas não a percebiam, mas a voz dela era meiga, e suave. Não era como a da Dona Lina que estava sempre a gritar com elas. A menina, fazia-lhes festas e as galinhas sentiam-se bem. E havia uma galinha, muito branquinha, sempre com as penas muito limpas, o que numa galinha é coisa rara. Mas esta esmerava-se, andava sempre muito limpinha. Ao princípio as outras galinhas estranharam e não gostavam muito dela. Achavam que ela era convencida, se calhar. Mas depois, como a galinha não se metia com ninguém, e era muito boazinha, foram-se habituando e passado algum tempo, as outras galinhas começaram também a tomar conta das penas e já andavam todas muito mais limpinhas. A galinha que começou isto tudo era a preferida da menina. Ela trazia-lhe sempre uns grãos de milho e umas verduras, e a galinha também gostava da menina.
Um dia, enquanto a menina estava no campo, as galinhas viram chegar mais umas pessoas, e essas pessoas traziam uns embrulhos coloridos, e com uns laços e muitas fitinhas. Eram presentes para a menina, porque ela fazia anos. A Dona Lina recebeu os presentes e guardou-os dentro de casa. Passado um bocado as galinhas viram a Dona Lina sair de casa e vir direita à capoeira. Começaram logo a ficar agitadas, e a olhar umas para as outras a ver quem é que não tinha posto o ovo. A Dona Lina chegou, abriu a porta da capoeira, e entrou lá dentro. Só que desta vez não foi ver se havia ovos. Avançou na direcção das galinhas e de repente agarrou uma delas pelo pescoço. As outras ficaram muito aflitas, e só depois é que repararam que era a galinha de que a menina gostava mais. A Dona Lina saiu do galinheiro com a pobre galinha presa pelo pescoço, quase a sufocar, e levou-a para as traseiras da casa. As outras galinhas olharam-se cheias de pena pois sabiam que não iriam voltar a ver a galinha das penas brancas. Sempre que a Dona Lina levava uma galinha para trás da casa, nunca mais a viam.
Passado algum tempo a menina regressou do campo. Entrou em casa e as galinhas, que estavam muito tristes, ouviram os ruídos da festa que a menina fazia a abrir os presentes, e a rebentar balões e outros sons da festa. Depois a menina e a Dona Lina foram almoçar. Se as galinhas pudessem ver os pratos teriam reconhecido a forma de uma galinha. A menina, que não sabia de nada, comeu a galinha e repetiu, pois soube-lhe muito bem. Depois comeu um pudim, muito saboroso, e depois foi brincar com alguns dos presentes. Mais tarde, a menina veio para fora de casa e como era seu hábito, veio ver as galinhas. Procurou a sua preferida e não a encontrou. Olhou para todos os cantos da capoeira, mas sem a encontrar. As outras galinhas, tentaram dizer-lhe o que tinha acontecido mas a menina não as compreendia. Cacarejavam tristemente, mas nada, até que uma se lembrou de tentar mostrar à menina o que se tinha passado, correu para a porta da capoeira e meteu a cabeça pela abertura empurrando a porta. Ao princípio a menina não percebeu, mas depois ficou intrigada pelo comportamento da galinha e abriu-lhe a porta. A galinha correu para a esquina, onde ficou a cacarejar e a olhar para a menina, a chamá-la. A menina foi lentamente aproximando-se da esquina da casa, e espreitou para a parte de trás. Viu umas quantas penas a voarem pelo chão. Contornou a esquina e viu amontoadas ao pé de um balde, uma série de penas e quando espreitou para dentro do balde, viu bem lá no fundo, as patas de uma galinha, e a cabeça decepada da sua galinha favorita. A menina deu um grito horrorizada, e num instante percebeu o que tinha acontecido. A Dona Lina tinha morto a galinha, a mais bonita de todas. A menina ficou um momento a olhar para o balde, e uma lágrima correu pelo rosto abaixo, até chegar aos lábios, onde sem se aperceber moveu a língua e provou o sabor salgado da lágrima.
Lentamente, e sem mostrar nenhuma emoção no rosto a menina voltou para o galinheiro, e abriu a porta.
"Saiam. Agora estão livres. Saiam daqui! Vão-se embora e não voltem" - disse ela para as galinhas, e dando meia volta regressou à casa.
Subiu os degraus lentamente e abriu a porta. Entrou e avançou à procura da Dona Lina. Ouviu os sons que vinham da cozinha, e dirigiu-se para lá. Abriu a porta e ficou parada na entrada. A Dona Lina andava atarefada de um lado para o outro, vigiando o lume, e preparando coisas para cozinhar. Quando olhou para a aporta nem se apercebeu de nada, continuou a trabalhar, até que a sua mente a avisou de que algo não estava bem. Olhou novamente para a porta, e reparou então na cara da menina. Ela tinha a cara branca, os olhos baços, e mantinha-se ali na entrada da cozinha sem se mover e sem dizer nada. A Dona Lina assustou-se - "Filha estás bem?"
A menina. não levantou o olhar, nem mexeu a boca, mas ouviu-se um som gutural, que pouco a pouco subiu de tom.
"Tu mataste a minha amiga! E depois deste-ma a comer"
A Dona Lina olhou em volta sem perceber bem de onde vinha o som, nem o significado do que diziam. Mas, após um instante percebeu, e horrorizada voltou-se para a menina.
"Ela era a mais bonita. E era minha amiga! Tu mataste-a!"
- Oh filha, era só uma galinha...
"Cala-te! Como podes dizer isso? Ela era a mais bonita das galinhas!"
- Mas... Mas era uma galinha.
Lentamente a menina levantou a cabeça, e a Dona Lina pode ver os olhos vermelhos, cor de sangue que a fitavam. Soltou um grito e sem querer deu um passo atrás.
"Vais pagar pelo que fizeste!"
Com estas palavras levantou-se um vento que foi ganhando intensidade e transformou-se num remoinho à volta da menina, que sem tirar os olhos de cima da Dona Lina, avançou na sua direcção. O remoinho aumentava de intensidade e os objectos da cozinha começaram a ser levados pelo vento. Primeiro os mais leves, a cesta do pão, os guardanapos, o napperon da bancada. Depois foram os outros, cada vez mais pesados, as tampas dos tachos, das panelas, e a fruteira, tudo rodopiava levado pelo vento. A Dona Lina olhava horrorizada, para estas coisas todas a voar à frente dos seus olhos e não conseguia acreditar.
- Mas era só uma galinha - murmurava ela incrédula.
"Mas era minha amiga!" - Gritou a menina enquanto um tacho passava a centímetros do nariz da Dona Lina. Mais coisas se juntaram ao remoinho, tachos, panelas, canecas, e até talheres, toda a parafernália de artefactos de cozinha rodopiavam à volta ta menina, que pé ante pé, ia avançando na direcção da Dona Lina. Esta sentia-se aterrorizada e não conseguia desviar o olhar da menina. Nem se apercebia dos objectos que rodopiavam em torno da menina, e que quase a atingiam.
"Vais pagar! Vais-te transformar em galinha. Vais por 2 ovos por dia. E vais esgravatar na porcaria, e nunca irás ter as penas limpas. E, e nunca terás amigas. Vais ser burra e um dia, alguém te irá comer!"
A Dona Lina ouviu estas palavras instantes antes da panela onde habitualmente cozinhava a sopa a atingir de lado, na cabeça, e a fazer perder os sentidos tombando no chão. Ao longe ouviu um riso demoníaco:
"Ha ha ha ha..."



Ana gritou ao acordar agarrando-se com força ao pescoço do avô. Não se dera conta de ter adormecido.



Escrito por AReis às 00:00 | link do post | comentar

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