Atenção que estes contos não se destinam a crianças. Poderão, eventualmente, ter conteúdo não aconselhável a menores

Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

João virou-se para trás e viu novamente a rua vazia. Já há instantes atrás tinha tido o mesmo pressentimento de que havia alguém atrás dele. Por um breve instante semicerrou os olhos e tentou perscrutar a escuridão. Ajeitou o sobretudo velho, levantando a gola em torno do pescoço, e retomou o caminho. Pretendia chegar a casa o quanto antes. Este tempo não estava para andar na rua. O frio cortante fazia-se sentir principalmente nas orelhas e no nariz, que pareciam estalar com o frio. Passava das 3 horas da manhã e as ruas estavam desertas. Eram raras as casas da aldeia que tinham uma luz acesa. Recordou-se da sensação de estar a ser seguido, e descontou-a, pensando para si próprio que só os desgraçados como ele andariam na rua com um tempo destes. Ao fundo da viela estava o antigo café do Zé Pau. Recordou-se de como não muitos anos atrás o café era o centro da vida nocturna da aldeia. Quando a aldeia ainda tinha gente. E homens para ir ao café beber um tinto, e saber das novidades. Alguns tinham morrido, outros tinham ido para outros lugares, procurando melhor sorte. O café fechara e a aldeia mergulhara ainda mais no esquecimento a que estava condenada. Ao passar pelo café olhou para a porta com saudade. Encolheu os ombros e  dobrou a esquina. Não adiantava estar com saudosismos numa noite fria como esta. Uns passos mais à frente, teve novamente a sensação de que não estava sozinho. Desta vez tinha ouvido algo atrás de si. Esquecido o frio, virou-se rapidamente e voltou à esquina pronto para enfrentar o seu perseguidor.
Ao chegar à esquina saltou para a viela, com os punhos cerrados e pronto para o que surgisse. Não havia lá ninguém. Apenas a escuridão e o silêncio desta noite de inverno.
Nesse instante teve um premonição terrível. Começou a virar-se para trás, mas já não teve tempo de ver o que estava atrás de si. Recebeu uma pancada forte na cabeça. Os joelhos dobraram, e João caiu no chão inconsciente.




Acordou lentamente. Estava num sítio com muita claridade. Percebeu que estava de olhos fechados, e abriu-os. A luz intensa cegou-o e a sua cabeça explodiu de dor. Sentia o latejar nas têmporas. Tentou mexer-se e reparou que não podia. Forçou-se a abrir os olhos e após um breve instante conseguiu ver que estava amarrado a uma cadeira. Tentou libertar-se, mas as cordas prendiam-lhe os braços aos lados da cadeira e tinha as pernas amarradas às pernas da cadeira. Tinha ainda uma laçada de corda à volta da cintura e por cima das coxas. Não adiantava mexer-se. A cordas não tinham folga. Ao agitar-se percebeu que a cadeira estava fixa ao chão. Por muito que se agitasse, a cadeira permanecia fixa e imóvel.
Nessa altura percebeu que estava a gritar, em pânico. Gritou o mais alto que pode:
-Ajudem!! Socorro!!
Escutou,e não obteve resposta. Olhou novamente para a frente e percebeu que havia ali uma secretária em frente à qual estava sentado. Em cima da secretária estava um candeeiro com uma lâmpada potente virada na sua direcção. De lado as paredes eram nuas e com um acabamento grosseiro. Não conseguiu virar a cabeça para trás e ver o que estava por detrás de si.
Após um instante reparou que estava de tronco nu. Olhou novamente em volta e não conseguiu ver onde estariam as suas roupas. Mas que lhe estava a acontecer? Porque lhe estariam a fazer isto?
Tentou, novamente olhar para trás, mas por muito que voltasse a cabeça, não conseguia ver a parede toda por detrás de si. A parte que conseguia ver era igual às outras duas paredes laterais. A que estava à sua frente, não a conseguia ver por causa do candeeiro, cuja luz forte o cegava. João, virava a cabeça de um lado para o outro, tentando ver algo que lhe desse uma pista sobre o que lhe estava a acontecer.
- Ajudem-me!!! - Gritou desesperado - Tirem-me daqui!!!
Nada. Apenas nessa altura reparou, que não conseguia escutar nenhum ruído. Apenas ouvia o seu próprio coração a bater desenfreado. E também a sua respiração ofegante. Procurou acalmar-se e pensar racionalmente.
Inventariou, mentalmente as partes do corpo. Apesar de bem amarrado à cadeira, não parecia ter nada partido. Tirando aquele latejar na cabeça, estava bem.
Tinham-lhe dado uma pancada forte.
- Porque?! Tirem-me daqui!! - Gritou novamente, sem resposta.




Não soube quanto tempo tinha passado. Continuava com a mesma luz forte virada para si, e não tinha maneira de medir o tempo. Não usava relógio havia muitos anos, e agora mesmo que o tivesse, não conseguiria mover o pulso para ver o mostrador. A cabeça já não lhe doía, mas agora doía-lhe o resto do corpo. Já tinha tentado libertar-se de várias formas e a única coisa que tinha conseguido fora umas queimaduras feitas pelas cordas. Pensou em quem seria que o tinha levado para ali. Se o apanhasse, havia de o fazer pagar. Imaginou diversas cenas em que se vingava do homem. Por mais voltas que desse não conseguia perceber porque o tinham atacado. Ele não fizera mal a ninguém. Há anos que vivia na aldeia. Era um dos 8 habitantes. Eram quase todos reformados e com filhos e netos a trabalhar na cidade. Raramente vinham ver os velhos, muito menos agora de Inverno. Ele com 50 anos era o mais novo da aldeia. Morava numa casa situada mesmo no limite da aldeia. A casa era velha, herdada dos pais e tinha um terreno pequeno nas traseiras. Era ali que tinha a sua horta e o galinheiro, que serviam de complemento ao seu parco ordenado. João trabalhava como vigilante numa mina encerrada. Não tinha mais que a instrução básica, e não tinha sido fácil segurar aquele emprego. Mas o encarregado acabara por lhe dizer que os patrões de Lisboa, queriam pagar o menos possível, e ele recebia muito pouco. Faziam turnos de 10 horas. Era ilegal, tinham-lhe dito, mas ele precisava do dinheiro e de resto até podia dormir no trabalho. Não estava lá ninguém para ver. Só tinha de tomar conta do barracão onde estavam os geradores e garantir que ninguém entrava na mina. Mas, nas imediações não havia ninguém interessado em ir até lá.
Ouviu um barulho por trás de si. Pareceu-lhe ouvir passos ao longe. Tentou virar-se para trás e gritou:
- Tirem-me daqui!!! Socorro!! Acudam!!
Os passos tornaram-se mais audíveis, e João percebeu que não estavam dentro da mesma sala, e nesse instante ouviu uns barulhos, seguidos de um ferrolho a ser corrido.
- Socorro!! Ajudem-me!!
Ouviu a porta abrir-se e virou o pescoço de um lado para o outro tentando espreitar para trás. Ouviu os passos de alguém a entrar na sala, e a porta voltar a fechar-se.
- Ajude-me! Por favor ajude-me!!
De repente o candeeiro apagou-se e a sala ficou quase às escuras. A surpresa fê-lo calar-se por momentos. Lentamente a sua vista habituou-se à penumbra. Havia uma réstia de luz vinda de trás, possivelmente da porta, e reparou que essa luz produzia uma sombra na parede em frente. E a sombra estava a mexer-se. Em pânico, voltou a gritar:
- Ajude-me! Deixe-me ir embora por favor.
Sentiu que alguém estava por trás dele. Freneticamente tentou libertar-se mais uma vez das cordas que o prendiam, mas era inútil. Não conseguia. Ouviu mais uns ruídos por trás de si, e de repente sentiu algo passar em frente à cara. Não teve tempo de reagir. Um objecto frio, rijo polido for colocado na sua boca. Percebeu que de lado tinha umas correias que lhe estavam agora a ser apertadas por trás da cabeça. Tentou gritar mas para todos os efeitos estava amordaçado. Os sons que produzia não tinham sentido. pareciam os urros e gemidos de um animal. Agitou-se violentamente, mas não conseguia libertar-se. Tentou, em vão olhar para trás, mas não via o seu agressor.
Ouviu novamente passos a afastarem-se. Enquanto João tentava chamar o homem, a porta abriu-se, o candeeiro acendeu-se de novo e a porta voltou a fechar-se. João ficou só e em silêncio, amordaçado.




Acordou sobressaltado. Escutou, e não ouviu nada. Continuava sentado na cadeira, amarrado, e amordaçado. Não sabia há quanto tempo ali estava, mas decerto que já seria há pelo menos um dia, a julgar pela fome que sentia. Deu por si a chorar, desesperado. Quem lhe estaria a fazer isto? E porquê? Sentia o corpo todo dormente. A boca doía-lhe por causa da mordaça. Tentou retirá-la esfregando a face nos ombros, mas não adiantava. Apenas espalhava saliva pelo peito. Olhou novamente em volta e não viu nada de novo. Continuava na mesma posição sentado na cadeira em frente à secretária com o candeeiro voltado para ele. A fadiga fez com que dormisse mesmo apesar da luz forte. Não tinha maneira de medir o tempo, e estava lentamente a enlouquecer. Porque lhe estavam a fazer isto?
Pensou nas pessoas da aldeia. Ninguém lá tinha nada contra ele. Eram todos pessoas calmas e reservadas. Não se metiam na vida dele e ele não se metia na deles. Quando se encontravam ao fim de semana lá trocavam as parcas novidades. Geralmente eram notícias das maleitas que os afligiam. Ou, caso tivesse sorte, havia notícias da cidade. Morar nos confins da serra tinha os seus inconvenientes. tinham uma linha telefónica para a aldeia, e uma outra instalada na mina. Mesmo a linha da aldeia era utilizada principalmente pelo João. Pensou que ninguém daria pela sua falta. Podia morrer ali, que nunca ninguém o encontraria.
Ouviu barulho e a porta a abrir atrás dele. Tentou olhar para trás mas continuava a não conseguir. Desta vez os passos não pararam atrás dele. Viu um vulto passar e dirigir-se à secretária carregando um objecto grande e quadrado. Não conseguia perceber o que era. O vulto tinha um sobretudo comprido e um capuz. Não era um sobretudo, era uma capa e o capuz fazia parte. Pediu, implorou que o libertassem, mas apenas conseguia produzir uns urros e gemidos ininteligíveis. O vulto colocou os objectos que trazia em cima da secretária, mantendo-se sempre de costas para ele. Arrumou as coisas na secretária e João ouviu uns quantos ruídos. Depois, sem uma palavra e sempre sem se virar o vulto recuou e saiu da sala, enquanto João lhe gritava, insultando e implorando ao mesmo tempo que o libertasse. O vulto desapareceu do campo de visão de João e instantes depois ouviu a porta abrir, fechando-se pouco depois. A luz do candeeiro já não era tão potente. João conseguia agora ver a secretária e a parede de fundo. Do outro lado da secretária estava uma outra cadeira, vazia. Em cima da secretária estava uma pequena televisão. Estava ligada. Mas no ecrã apenas se via um fundo azul escuro.





De repente, a imagem da televisão mudou. Apresentava uma imagem de um bebé. João olhou para lá sem compreender. Um bebé? Que mente perversa estava por trás disto?
Tentou desviar o olhar, mas acabava por olhar novamente para a imagem do bebé. Passado algum tempo surgiu um ecrã todo preto. Depois apareceu outra vez a imagem do mesmo bebé. João sentiu fome e perguntou-se há quanto tempo estaria ali. Podia ser um dia, podiam ser dois ou mais. Não tinha maneira de saber. Não fazia frio dentro da sala. Dentro da sua sala de martírio. João sentia o corpo dormente. Sentia-se a enlouquecer. Todo o seu corpo era um mar de dor. Anteriormente tinha tentado conter a vontade de urinar, mas acabara por não conseguir. Agora tinha ainda mais esse embaraço. Por um momento, desejou que o seu sequestrador voltasse e o matasse. Acabava-se de uma vez. Mais tarde, quis que ele voltasse apenas para ver alguém, para ter a certeza de que não estava sozinho. Agora ao olhar para a televisão e para o bebé lá retratado tinha a certeza que estava a ser torturado. Só não conseguia perceber porque.
A imagem mudou. Deixou de aparecer um bebé, e agora mostrava um ecrã ceio de chamas, labaredas e mais nada. João sentia-se desfalecer. A fome e a sede tornavam-se insuportáveis. A sua mente estava perto do delírio. João tinha sonhos desconexos, de que nem se lembrava. Apenas sabia que entre o sonho e a realidade que estava a viver, nenhum era agradável. Desejou adormecer e não acordar mais.
João corria pelo corredor fora, fugindo desesperado. Não arriscava olhar para trás. O som que vinha de trás era terrível. Era um grito lancinante, que se prolongava no tempo, e repetia num sequência infernal. Quanto mais corria para se afastar, mais audível se tornava o grito.
Acordou sobressaltado. O grito continuava a fazer-se ouvir ecoando no seu cérebro. Demorou um instante a perceber que o grito vinha da televisão na sua frente. A imagem já não era a da criança nem a das labaredas. Era de uma bicicleta de criança. Estava torcida e nunca ninguém a poderia pedalar. João olhou fixamente para o ecrã até que baixou a cabeça compreendendo finalmente. Continuava a não saber quem lhe tinha feito isto mas percebia finalmente porque. Tinha sido há tantos anos que quase já não pensava nisso. Agora o passado voltava a apanhá-lo para ajustar as contas que tinham ficado em aberto.




Era verão. Os dias eram compridos e cheios de sol. O calor por vezes tornava-se insuportável. Mesmo durante a noite as temperaturas continuavam elevadas. João abriu o frigorífico e tirou a última cerveja. Bolas! Nem estava decentemente fresca. Também não interessava, depressa aqueceria. Abriu-a e de imediato bebeu metade do conteúdo da garrafa. Precisava de mais cerveja. Mais tarde, o seu clube do coração ia receber o  eterno rival, e João já estava a comemorar a mais que certa vitória. Mas um jogo sem cerveja não era jogo. Era melhor trazer uma dúzia de garrafas. Ao ritmo que tinha despachado as últimas quatro, uma dúzia devia chegar até à hora do jogo. Rindo para si próprio, bebeu o resto da cerveja e pousou cuidadosamente a garrafa em cima do balcão da cozinha. Bolas... Isto já começa a fazer efeito, pensou rindo-se histericamente. Tenho de ir com calma para não fazer asneira. Saiu de casa e cambaleou na direcção do fiat 127 que era o seu orgulho. Não conseguiu à primeira introduzir a chave na ranhura da porta. Riu-se mais um pouco, e com determinação destrancou a porta, abriu-a e sentou-se ao volante. Rodou a chave na ignição e o motor fez-se ouvir. Olhou para a alavanca das mudanças e ouviu-se o protesto das engrenagens quando engrenou a marcha-atrás sem ter premido completamente a embraiagem.

Instantes antes, Inês conseguira a custo arrastar a bicicleta pelo degrau que separava o pátio de sua casa do passeio. O degrau era alto e Inês com 4 anos, negociava-o bem. Porém hoje queria fazer uma surpresa à mãe. Ia esperá-la na bicicleta. O portão era alto e pesado, a bicicleta era maior do que ela, e as rodas de apoio eram mais largas do que a passagem. Inês esforçou-se e finalmente, após várias tentativas, conseguiu puxar a bicicleta e equilibrá-la no passeio irregular. Colocou-se em cima da bicicleta e começou a pedalar lentamente, pelo passeio fora na direcção da esquina onde teria de virar para entrar na rua onde ficava a paragem do autocarro. A mamã ia ficar tão contente!

João riu-se do barulho que o carro fez ao engrenar a mudança.
- Shiu! - Disse alto rindo-se ainda mais. - Aguenta que é só até ao mercado... é já ali.
Arrancou lentamente, e olhando alternadamente pelos espelhos laterais, recuando pelo caminho que dava acesso à estrada.

Inês estava quase a chegar à esquina. Devagar e encostada aos muros das casas, afastava-se o mais possível da estrada. A miúda lembrava-se bem que os pais não queriam que ela andasse na estrada. As rodas de apoio faziam-na oscilar de um lado para o outro na bicicleta. Mas Inês, nem reparava. Ia totalmente concentrada em pedalar, movendo as pernitas, para cima e para baixo, enquanto pensava na surpresa que ia fazer à mãe.

João sentiu as rodas encostarem ao pequeno degrau que separava o caminho do passeio exterior. O carro parou, e avançou ligeiramente para dentro do caminho. João travou o carro, e retomou a manobra acelerando um pouco para dar balanço para subir o degrau. Não viu a pequena Inês. O carro saltou o degrau e João parou o carro para olhar para os dois lados da estrada. Não vinha ninguém, e ele acelerou para recuar para a sua faixa de rodagem. Apenas nessa altura ouviu pessoas a gritarem.


As lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo. Fora há tanto tempo. Fez uma conta rápida. Já se tinham passado 32 anos. Na altura tinha sido detido, mas após o inquérito tinha sido libertado. Uma das testemunhas fora instrumental em concluir que a criança vinha encostada ao muro e que assim se encontrava fora do ângulo de visão do condutor. Tivera sorte. Se aquela senhora não tivesse testemunhado conforme fizera, o caso poderia ter sido muito pior. Assim, levara uma forte reprimenda, mas nada de mais. Mesmo assim João ficara destroçado. Abandonara a cidade, e voltara para a sua aldeia, de onde raramente se ausentava. Com o tempo acabara por esquecer, mas nos primeiros anos tivera pesadelos que o faziam acordar a meio da noite. Recordava ainda a forma como os pais da menina olharam para ele quando fora liberto. Tivera sorte, não fora preso, mas mesmo assim os remorsos perseguiram-no durante muito tempo.
Agora, alguém o encontrara e queria vingança. João ainda não tinha visto a face do seu raptor, mas imaginava que fosse o pai da pequena Inês. Mas fosse quem fosse, ele já não queria saber. Estava ali preso há bastante tempo, sem se mexer, tanto tempo que já não sentia o corpo, apenas uma névoa de dor permanente. Admirou-se como ainda conseguia pensar.
Não sabia se tinha adormecido mas quando reparou na televisão, esta mostrava apenas uma palavra a branco sobre um fundo negro "Assassino". João não conseguiu mover os olhos do ecrã senão passado muito tempo. Sim ele era um assassino. Tinha cortado cerce a vida daquela menina. Mas a culpa não tinha sido sua. O próprio juiz dissera que tinha sido um acaso infeliz. Se ele estivesse inteiramente lúcido continuaria a não ter hipótese de ver a menina. O acidente teria ocorrido da mesma forma na mesma altura.
Nesse momento, ouviu novamente ruído atrás de si. Já nem tentou olhar para a porta. Além de saber que não ia conseguir, o corpo doía-lhe demasiado para isso. Alguém se aproximou por trás dele e de repente sentiu que lhe estavam a enviar um saco na cabeça. Pensou que o iam sufocar. Mas não, não apertaram o saco.
Ouviu uma voz:
- Entra.
Ouviu mais passos, e depois uma voz feminina:
- Quero vê-lo.
- É melhor não. ajuda-me a levar isto.
Ouviu mais barulhos, e o arrastar de coisas. Pareceu-lhe que estavam a levar a secretária para fora da sala. Fizeram mais barulho, mas não ouviu mais vozes. Passado algum tempo, alguém lhe puxou o saco da cabeça e abriu lentamente os olhos. Já não viu a secretária nem a cadeira nem mais nada. Apenas a parede nua à sua frente. O candeeiro também tinha sido levado. A luz da sala provinha agora de cima, de uma qualquer lâmpada pendurada do tecto. Sentou que ainda continuava alguém atrás dele. Tentou falar, mas não conseguiu. O som que produziu, era mais parecido com um gemido do que com a palavra que queria pronunciar.
- Vais ficar aqui até apodreceres. Vais pagar pelo que nos fizeste. Aqui ninguém te encontrará.
João continuava a tentar pronunciar aquela palavra. Ouviu o homem afastar-se enquanto se concentrava ao máximo. No momento em que apagavam a luz e a porta se fechava, ouviu-se finalmente uma palavra inteligível:
- Perdão...



Escrito por AReis às 00:00 | link do post | comentar

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